ACNUR e empresa ajudam refugiados vivendo em Ruanda a trocar lenha e carvão por combustível limpo

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Em Ruanda, praticamente todos os 150 mil refugiados dependem de lenha e carvão para cozinhar. A dependência dessas fontes de energia provoca problemas de saúde: 225 refugiados morrem todos os anos por causas relacionadas à poluição do ar em ambientes fechados. Outros riscos incluem o desmatamento das florestas. Globalmente, 80% dos refugiados dependem de biomassa tradicional para cozinhar, levando à queima de 64,7 mil acres de floresta por ano.

Mulheres e crianças pequenas chegam a passar horas perto do fogo, inalando fumaça tóxica que causa doenças e leva à morte. Foto: ACNUR/Anneliese Holllmann

Mulheres e crianças pequenas chegam a passar horas perto do fogo, inalando fumaça tóxica que causa doenças e leva à morte. Foto: ACNUR/Anneliese Holllmann

Em 2016, uma empresa ruandesa chamada Inyenyeri fez algo que nenhum negócio do setor privado havia feito antes no país: abriu uma loja dentro de um campo de refugiados. Com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a companhia fornece combustível limpo para os deslocados forçados que vivem no acampamento.

O organismo internacional acredita que o produto pode ser a solução ideal para combinar abastecimento de energia e preservação do meio ambiente. A Inyenyeri aluga para os refugiados um dos fogões mais ecologicamente responsáveis do mundo, além de vender também pellets — pequenas pastilhas e bastonetes feitos com biomassa comprimida que servem de combustível.

Em Ruanda, praticamente todos os 150 mil refugiados dependem de lenha e carvão para cozinhar. Essas fontes de energia, porém, trazem riscos para a saúde e a segurança da população.

Mulheres e seus filhos pequenos passam horas perto do fogo, inalando fumaça tóxica que causa doenças e leva à morte. Em Ruanda, 225 refugiados morrem todos os anos por causas relacionadas à poluição do ar em ambientes fechados.

Outro problema é o esgotamento dos recursos florestais. Quando a coleta de madeira se torna inviável em uma localidade, refugiados e membros de comunidades anfitriãs têm de viajar para encontrar lenha. Segundo o ACNUR, a tarefa recai costumeiramente sobre o público feminino.

No meio rural, mulheres relataram terem sido atacadas e agredidas sexualmente enquanto buscam madeira em florestas ou campos próximos. A coleta também consome tempo que poderia ser usado em outras atividades e em capacitação.

O tempo das crianças também é desperdiçado, aponta o ACNUR. Com fogões sujos de carvão, elas muitas vezes passam horas esfregando panelas em vez de ir à escola, estudar ou brincar.

De acordo com o organismo internacional, a escassez de lenha fez com que mais de 29% dos refugiados em Ruanda entrassem em conflito com integrantes das comunidades que os acolhem. A agência aponta que esses habitantes também sofrem com o desmatamento, que chega a se estender por quilômetros ao redor do campo.

O impacto ambiental da dependência de métodos tradicionais de cozimento também é devastador, alerta o ACNUR. Degradadas, as florestas liberam dióxido de carbono no ar, deixam o solo propenso à erosão e, no terreno montanhoso de Ruanda, podem levar a inundações e deslizamentos de terra.

Pelo menos 60 pessoas morreram em 2016 devido a deslizamentos causados por fortes chuvas. A maioria era de crianças. O problema não se limita à Ruanda, lembra a entidade das Nações Unidas. Globalmente, 80% dos refugiados dependem de biomassa tradicional para cozinhar, levando à queima de 64,7 mil acres de floresta por ano.

Um combustível mais ecológico

A Inyenyeri vende fogões adaptados à queima de pellets, que são feitos principalmente de ramos de eucalipto secos, cortados e comprimidos. Essa forma alternativa de usar a natureza para produzir energia consome até 95% menos madeira do que o tradicional fogão feito com três pedras ou fogões a carvão. A queima é quase duas vezes mais limpa, assemelhando-se a do gás natural, cujo custo é muito elevado para a maioria dos ruandeses.

A fonte de combustível alternativa também é mais eficaz do que o carvão vegetal na produção de calor — uma vantagem para os refugiados cujos pratos tradicionais costumam cozinhar durante horas. O primeiro cliente da Inyenyeri era uma mulher do campo de refugiados de Kigeme que possui seu próprio pequeno negócio de laticínios.

“Ela veio para comprar mais pellets dizendo que estava muito feliz com o fogão, porque cozinhou o leite perfeitamente”, diz a conselheira legal e política da Inyenyeri, Suzanna Huber. “Os refugiados não estão apenas usando isso para suas famílias, mas também para ganhar dinheiro. Isso é exatamente o que queremos.”

Quando os refugiados se tornam clientes

Em Ruanda, o ACNUR realiza a transição do modelo de assistência presta aos refugiados que, agora, são encorajados a toma decisões como consumidores. Em 2015, os refugiados em três dos seis acampamentos do país recebiam transferências diretas de dinheiro do Programa Mundial de Alimentos (PMA), em vez de quantidades controladas de alimento. A expectativa para 2017 é de que a outra metade dos campos faça a mesma mudança.

Para resolver desafios relacionados à proteção do meio ambiente e ao fornecimento de energia, o ACNUR tem buscado parcerias com o setor privado, mas a agência identificou o que descreve como uma escassez de financiamento voluntário para empresas como a Inyenyeri.

Em Ruanda, praticamente todos os 150 mil refugiados dependem de lenha e carvão para cozinhar. Foto: ACNUR/A. Hollmann

Em Ruanda, praticamente todos os 150 mil refugiados dependem de lenha e carvão para cozinhar. Foto: ACNUR/A. Hollmann

O organismo internacional aponta, porém, que quando os refugiados são empoderados economicamente, eles podem escolher produtos e tecnologias que melhor se adequem aos seus recursos e necessidades. Segundo o ACNUR, com o novo poder de compra, refugiados estão tomando a decisão de se tornarem clientes da Inyenyeri.

A empresa lançou um projeto-piloto no campo de refugiados de Kigeme no início de outubro de 2016 e cem famílias se inscreverem imediatamente. “A demanda está lá: todo mundo sabe que o carvão e a lenha são combustíveis sujos”, diz Huber. “Se eles tivessem uma escolha, eles não estariam fazendo isso.”

As primeiras reações dos deslocados forçados que adquirem o fogão e os pellets têm sido positivas. Um jovem casal contou de clientes contou como seu bebê costumava sofrer com a fumaça quando cozinhavam com madeira dentro de casa. Agora, eles podem cozinhar, manter o bebê aquecido e também esquentar a água para o banho sem prejudicar a saúde do filho.

Uma família de refugiados com cinco integrantes pode esperar um gasto de pouco menos que 6,70 dólares por 30 quilos de pellets por mês. Isso representa 17% do subsídio em dinheiro disponibilizado pelo PMA. De acordo com o ACNUR, o índice representa uma porcentagem típica para os consumidores de energia da África Subsaariana e é menor do que gastariam em carvão vegetal.


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