ACNUR: crises do passado dão exemplos de como é possível atender refugiados no presente

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No final da década de 1990, a crise no Kosovo levou a comunidade internacional a se unir e realocar 96 mil pessoas que haviam fugido do país e precisavam de segurança. Experiência foi lembrada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) por ocasião de encontro realizado nesta semana (10) para debater estratégias de enfrentamento à atual crise de deslocamentos forçados.

Emin Voca e sua tia, Ixhran Shabani, em Mitrovica, na região do antigo Kosovo, em junho de 2017. Voca tinha dez anos quando ele e sua família fugiram para a ex-República Iugoslava da Macedônia. Foto: ACNUR / Shpend Halili

Emin Voca e sua tia, Ixhran Shabani, em Mitrovica, na região do antigo Kosovo, em junho de 2017. Voca tinha dez anos quando ele e sua família fugiram para a ex-República Iugoslava da Macedônia. Foto: ACNUR / Shpend Halili

Em uma tarde de primavera, paramilitares foram à casa de Emin Voca, no Kosovo, e avisaram ao seu pai que fosse embora. “Eles disseram: ‘você precisa ir amanhã pela manhã. Caso contrário, será morto’. Estávamos apavorados”, lembra-se Voca, que tinha apenas dez anos de idade. O ano era 1999, quando milhares de civis deixaram o país para escapar dos conflitos e buscar refúgio na então vizinha República Iugoslava da Macedônia.

Voca e sua família tiveram sorte. Eles estiveram 96 mil kosovenses atendidos pelo Humanitarian Evacuation Programme (Programa Humanitário de Evacuação, em tradução livre para o português), uma iniciativa da comunidade internacional para realocar deslocados do Kosovo que haviam fugido para a República Iugoslava da Macedônia. Projeto enviou beneficiários para 29 países de todo o mundo, a fim de garantir sua segurança.

Depois de passar um mês vivendo sob tendas num campo, o então menino e seus parentes foram mandados para Comiso, na região da Sicília, Itália. “Eles nos deram roupas, comida e, o mais importante, segurança”, conta Voca, atualmente com 28 anos. “Minha família ficou muito grata à comunidade internacional por causa disso.”

O Programa de Evacuação é considerado pela Agência da ONU para Refugiados (ANCUR) um exemplo de responsabilidade compartilhada entre as nações. Segundo o organismo da ONU, o modelo dos anos 1990 pode inspirar novas estratégias para o enfrentamento da atual crise de desenraizamento compulsório — a maior desde a Segunda Guerra Mundial, com 65,6 milhões de pessoas sendo consideradas vítimas de deslocamento forçado.

Programas antigos de atendimento foram tema de encontro no início da semana (10) entre países, ONGs e agências internacionais. Reunião foi a primeira das cinco discussões temáticas organizadas pelo ACNUR para avançar o processo de desenvolvimento do Pacto Global para Refugiados. O organismo foi incumbido dessa tarefa no ano passado, durante a adoção da Declaração de Nova York sobre Refugiados e Migrantes pela Assembleia Geral da ONU.

“No momento em que enfrentamos números recordes de deslocamento forçado no mundo, é importante lembrar ocasiões em um passado não tão distante nas quais a comunidade internacional se uniu e encontrou soluções que salvaram vidas para situações de refugiados aparentemente complexas”, afirmou o alto-comissário adjunto para proteção do ACNUR, Volker Türk. “Nós fizemos isso antes e podemos fazer novamente.”

América Central: voltar para casa em paz

O Programa de Evacuação é apenas um dos exemplos desse tipo de cooperação. Na América Central, um acordo estabelecido no final da década de 1980 possibilitou que pessoas deslocadas por conflitos interligados em El Salvador, Nicarágua e Guatemala conseguissem reconstruir suas vidas em países de acolhimento.

A iniciativa ajudou alguns a se integrarem às nações onde solicitaram refúgio. Outros foram reassentados para um terceiro país. E 134 mil voltaram para seus países de origem – entre esses, uma indígena da etnia Poptí Mayan chamada Eulália Elena Silvestre Hernandez.

No ápice da terrível guerra civil da Guatemala em 1982, quando ela tinha apenas sete anos, Eulália fugiu da comunidade em que vivia, no nordesdte do país, depois que soldados jogaram gasolina nas casas e atearam fogo nas residências enquanto os moradores dormiam.

Eulália e sua família passaram os 13 anos seguintes no México. As deliberações da Conferência Internacional sobre Refugiados da América Central, ou CIREFCA na sigla em espanhol, permitiu que eles retornassem à Guatemala em 1995.

“Agora temos um pedaço de terra. Acho que a maioria das mulheres, ao menos na nossa família, tem um terreno”, conta a indígena sobre a nova vida em seu país de origem. Atualmente, ela tem 45 anos e é ativista na comunidade de Petén, que conseguiu retomar a prática da agricultura.


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