ACNUR apoia serviço de ligações gratuitas oferecido a venezuelanos em Roraima e Amazonas

Desde abril de 2018, a Operação Telefonia Humanitária é parte da resposta emergencial para os refugiados e migrantes venezuelanos que chegam aos estados de Roraima e Amazônia, e conta com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e suporte financeiro da União Europeia.

Entre janeiro e agosto deste ano, a Télécoms Sans Frontières (TSF), primeira ONG focada em resposta de emergência através da tecnologia, registrou mais de 55.000 ligações entre o norte do Brasil e várias regiões da Venezuela.

Diariamente, nas cidades de Boa Vista, Pacaraima e Manaus, em torno de 250 refugiados e migrantes atendidos pelo projeto têm a possibilidade de falar com familiares e quem precisou deixar para trás.

Diariamente, cerca de 250 refugiados e migrantes venezuelanos têm a possibilidade de ligar gratuitamente para seus familiares. Foto: ACNUR | Allana Ferreira.

Diariamente, cerca de 250 refugiados e migrantes venezuelanos têm a possibilidade de ligar gratuitamente para seus familiares. Foto: ACNUR | Allana Ferreira.

Por volta das 16h30, quando o sol está mais ameno e o calor não é tão intenso, uma fila vai se formando embaixo da tenda do refeitório do abrigo para refugiados e migrantes ‘Rondon 1’, em Boa Vista, Roraima. Por mais que este horário seja próximo do jantar, esses moradores do abrigo não estavam buscando alimento para o corpo, mas alimento para a alma: alguns minutos de ligações gratuitas para seus familiares na Venezuela.

Pelo menos uma vez por semana, as equipes da ONG Télécoms Sans Frontières (TSF) montam seu stand de atendimento em um dos 17 pontos de serviços nas cidades de Boa Vista, Pacaraima e Manaus. Desde abril de 2018, a iniciativa é parte da resposta emergencial para os refugiados e migrantes venezuelanos que chegam aos estados de Roraima e Amazônia, com apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e suporte financeiro da União Europeia.

Entre janeiro a agosto de 2019, a TSF, primeira ONG focada em resposta de emergência através da tecnologia, realizou mais de 55.000 ligações entre o norte do Brasil e várias regiões da Venezuela. Diariamente, em torno de 250 refugiados e migrantes atendidos pelo projeto têm a possibilidade de falar com amados e familiares que ficaram para trás.

Telefonia Humanitária

Roselys Del Valle Bolívar, 32 anos, deixou a Venezuela logo após dar a luz a seu terceiro filho. No período pós-cesárea, Rosely tinha muita dificuldade de encontrar medicamentos e alimento, o que afetava diretamente a amamentação do seu bebê. Sem alternativas, ela, o marido e os três filhos deixaram tudo para trás e encararam a jornada até o Brasil.

Rosely relata que quando descobriu sobre o trabalho da TSF, não perdeu tempo. “Liguei pra minha mãe a primeira vez que encontrei uma equipe da TSF, porque tinha muito tempo que não falava com ela. Esse foi um momento muito emocionante para nós duas”, contou.

Ela afirma que “falar com nossa família é algo que nos inspira a seguir a diante, a trabalhar, a lutar por um futuro melhor, para as pessoas na Venezuela e para nós aqui no Brasil”.

Atuando no projeto como atendente, o venezuelano Juan tem uma história que vai além das ligações oferecidas. No Brasil desde 2018, Juan morava nas ruas de Boa Vista quando foi atendido pela TSF. Sabendo bem como é difícil ficar completamente isolado da família, Juan, que veio sozinho para o Brasil, se ofereceu para ser voluntário no projeto.

Hoje ele é um dos operadores de atendimento e conseguiu trazer o restante da sua família para a capital roraimense. “É muito forte ver o sentimento de cada pessoa no momento que fazem uma ligação. Porque estar longe da família não é fácil. E o venezuelano tem um sentimento de família mesmo que essa tenha 14, 15 pessoas. Somos muito família”, relatou Juan.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Conforto e bem-estar na promoção da autonomia

Poder ouvir a voz de algum conhecido ou falar com alguém da família que ficou no país de origem representam forças essenciais que ajudam uma pessoa em situação de refúgio a continuar sua jornada, ressaltou a coordenadora do projeto, Elena Cofaru.

“Estamos falando de pessoas que viajaram por semanas em condições difíceis e que provavelmente não tiveram nenhuma chance de falar com seus familiares durante sua jornada”, disse Elena.

Segundo o ACNUR, uma situação de deslocamento forçado afeta o indivíduo não somente física e economicamente, mas também emocionalmente. “O ACNUR apoia projetos como esse que são importantes para a manutenção das conexões familiares e que auxiliam no planejamento de reunificação familiar, proporcionando um conforto tanto para quem partiu quanto para quem ficou”, comentou Angélica Uribe, Oficial de Proteção do ACNUR Roraima.

Para ela, quanto “mais estruturado emocionalmente a pessoa em estado de refúgio estiver, mais condições e autonomia essa pessoa terá para construir o seu futuro”.