ACNUR ajuda sobrevivente de tortura a reencontrar os filhos no Níger

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Após ser mantida em cativeiro por traficantes líbios durante 15 meses, sofrendo espancamentos e abusos, mãe somali reencontra filhos adolescentes no Níger. ACNUR apoiou operação.

Depois de mais de dois anos como refém do Boko Haram no nordeste da Nigéria, uma das meninas de Chibok relata as terríveis condições que vivenciou. Foto: UNICEF Nigéria

Foto: UNICEF Nigéria

A somali Amina*, mãe de dois adolescentes, era forte e cheia de vida antes de cair nas mãos de traficantes líbios. Depois de mais de um ano de espancamentos contínuos e choques elétricos, ela agora está debilitada e não consegue andar.

“Quando cheguei na Líbia, eu andava, ninguém tinha que me ajudar. Mas olhe para mim agora”, diz, erguendo os braços quebrados e com as pernas paralisadas.

A mulher de 42 anos está entre os milhares de refugiados e solicitantes de refúgio de toda a África que partiram em jornadas desesperadas em busca de segurança e que acabam reféns de traficantes de seres humanos na Líbia. Mantidos em cativeiro em condições terríveis, muitos são vítimas de abusos e torturas que os marcam para sempre.

Amina foi espancada e recebeu choques elétricos. “Eles sempre amarravam minhas mãos nas costas, e depois, me deixavam do lado de fora, amarrada no frio”, relembra.

O pesadelo começou em 2015, quando sua casa em Mogadíscio, capital da Somália, foi destruída por uma bomba que matou seu marido e seu irmão.

Eu implorei a eles para que não torturassem minha família”.

Sem acesso à educação e com recursos limitados, os filhos Ahmed e Mohamed, na época com 13 e 14 anos, corriam o risco de serem recrutados pelo grupo armado Al-Shabab, como muitos meninos da mesma idade.

Em 2016, os irmãos partiram em segredo em busca de segurança, acompanhados de uma prima que os levaria ao Iêmen, ao Sudão e depois à Líbia. Quando Amina soube que os filhos haviam ido embora, ela partiu rumo ao Iêmen, país devastado pela guerra, para tentar localizá-los.

Ela os encontrou cinco meses depois, no Sudão. Negociaram com traficantes e partiram para o norte, pelo Saara, com pouca água e comida, sob um calor escaldante. Amina ficou fraca e os traficantes queriam abandoná-la no deserto, mas os filhos se recusaram a deixá-la.

Quando chegaram à cidade de Bani Walid, no oeste da Líbia, os traficantes exigiram US$ 10 mil para cada um dos membros da família. Amina não tinha como pagar nem a quem recorrer. “Eles me torturaram muito. Eu implorei para que não torturassem minha família”, diz Amina, que se ofereceu para poupar os filhos e a sobrinha que os acompanhava na viagem.

Depois de sete meses, ela não conseguia mais ficar em pé nem movimentar as mãos. Os traficantes começaram a torturar as crianças. Após 15 meses em cativeiro, Amina estava à beira da morte. Os contrabandistas perceberam que não receberiam o dinheiro que exigiam  e finalmente libertaram a família.

“Eles sabiam que eu iria morrer e não queriam lidar com isso, então nos deixaram ir”, lembra Amina. Outra sobrinha também era mantida em cativeiro no mesmo local e a família toda foi libertada ao mesmo tempo.

Os cinco foram transportados para a costa e embarcaram em um barco inflável com destino à Europa. A família sabia que a embarcação estava sobrecarregada, com mais de cem pessoas, mas era incapaz de fugir. O pânico se espalhou horas depois, quando o barco começou a afundar mas um navio da Guarda Costeira da Líbia levou-os para terra firme, onde a Agência da ONU para Refugiados, ACNUR, aguardava os passageiros.

Em estado crítico, Amina foi levada para o hospital e o resto da família seguiu para um centro de detenção, onde o ACNUR os informou que seriam levados de avião para o Níger.

A mudança foi organizada com base no Mecanismo de Trânsito de Evacuação de Emergência (ETM, inglês) do ACNUR, estabelecido em novembro de 2017. Até agora, 1.020 refugiados vulneráveis foram evacuados temporariamente para o Níger, enquanto aguardam soluções de longo prazo, incluindo o reassentamento.

Os filhos de Amina temiam deixar a mãe novamente. “Estávamos muito ansiosos, desde o momento em que desembarcamos no Níger, ficamos perguntando sobre a nossa mãe – se ela estava viva, quando ela se juntaria a nós”, relembra Mohamed. Para seu alívio, o ACNUR conseguiu levar Amina para o Níger na semana seguinte.

Amina chora de novo, agora de felicidade. “Tudo mudou em um minuto. Em vez de me sentir deprimida, me senti abençoada”, lembra.

“Não há nada mais importante para nós do que a nossa mãe, e estamos muito gratos por ela estar bem”, diz Ahmed, com um largo sorriso. “Eu quero voltar [para a Somália] um dia”, ele acrescenta. “Eu quero levar mudanças para o meu país. Mas como vou conseguir se não consigo nem mesmo me proteger?”, lamenta.

Os ataques violentos e choques deixaram Amina confinada em uma cadeira de rodas e dependente das sobrinhas como cuidadoras. As experiências relatadas pela família não são incomuns entre os evacuados da Líbia, onde relatos de espancamentos, tortura e estupro são comuns.

Segundo um novo relatório publicado pelo ACNUR, há uma deterioração preocupante na saúde dos recém-chegados da Líbia para a Itália nos últimos meses – mais pessoas chegam extremamente debilitadas, magras e com problemas de saúde.

O ACNUR solicita mais lugares para reassentamento a fim de permitir que os evacuados comecem a planejar um futuro.
“Até agora, foram prometidos 2.483 lugares para refugiados no Níger, mas é preciso mais”, diz Alessandra Morelli, oficial sênior do ACNUR no Níger.

Dos refugiados que até agora foram evacuados para o Níger, 84 deixaram o país, a maior parte por meio do reassentamento, enquanto um pequeno número se reuniu com a família na Europa ou recebeu vistos humanitários.

“As evacuações para deixar a Líbia e as crescentes oportunidades de reassentamento que vimos no ano passado são boas notícias”, disse Pascale Moreau, diretor do Escritório do ACNUR na Europa.

“Ainda existem obstáculos significativos que limitam o acesso a vias seguras e legais, incluindo a reunião familiar, para pessoas que precisam de proteção internacional. Pedimos mais solidariedade”, afirmou.

* Os nomes dos refugiados foram alterados por motivos de proteção.


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