ACNUR ajuda refugiados de El Salvador a reconstruir suas vidas no México

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“Toda a minha família – pais, avós, bisavós – nasceu e morreu em El Salvador. Mas tudo terminou por causa de uma extorsão de 5 mil dólares”. A lembrança é de Maria Luz, de 71 anos, matriarca da família Perez. A idosa deixou o país após perder bisnetos, netos e filhos para a violência das gangues de rua. Atualmente, vive no México, que deverá receber 20 mil pedidos de refúgio em 2017 de salvadorenhos e outros cidadãos de nações da América Central, segundo estimativas da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Maria da Luz, matriarca dos Perez, olha fotos da família em seu quarto, no sul do México. O vestido azul pertencia à sua bisneta, que foi morta pelo membro de uma gangue em El Salvador. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Maria da Luz, matriarca dos Perez, olha fotos da família em seu quarto, no sul do México. O vestido azul pertencia à sua bisneta, que foi morta pelo membro de uma gangue em El Salvador. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

“Toda a minha família – pais, avós, bisavós – nasceu e morreu em El Salvador. Mas tudo terminou por causa de uma extorsão de 5 mil dólares”. A lembrança é de Maria Luz, de 71 anos, matriarca da família Perez. Ela e os parentes viviam confortavelmente nos subúrbios da capital do país, produzindo e vendendo pães. Os mais jovens estavam todos matriculados no Ensino Médio e na universidade. Mas o sonho com a prosperidade na terra natal durou pouco.

Em meados de 2015, um dos cunhados de Maria Luz foi coagido a pagar uma enorme quantia de dinheiro, conhecida como a “taxa de guerra” imposta pelas gangues violentas das ruas de El Salvador. Ele foi morto por não arcar com o valor.

A ameaça seguinte teve como alvo a filha da idosa, Sandra Felicitas Perez, de 42 anos. O preço imposto para manter sua família e negócio a salvo foi de 5 mil dólares. Sandra, seu marido e os três filhos adolescentes ficaram aterrorizados. “Estávamos vivendo como animais, trancados em casa, abrindo a porta somente para correr atrás de comida”, ela lembra.

Depois de algumas semanas vivendo assim, a filha de Sandra, também chamada Maria Luz, saiu de casa e foi à loja da família. Aos 19 anos, ela cursava o primeiro ano da faculdade, mas insistia em ajudar nos negócios. Naquele dia, os criminosos estavam à espera de algum parente no estabelecimento. A jovem foi assassinada logo após deixar o local.

“Esse acontecimento destruiu minha vida”, disse Sandra, mostrando uma foto em seu celular da filha e seus dois irmãos. “Dois dias depois, nós a enterramos e partimos. Eu sabia que se não saíssemos de lá, nós também morreríamos.”

Maria segura a foto da filha, Sara, que foi morta pela gangue aos 27 anos. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Maria segura a foto da filha, Sara, que foi morta pela gangue aos 27 anos. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Em julho de 2015, os Perez fugiram rumo ao norte do México para encontrar Carla, a irmã mais nova de Sandra, e suas duas filhas adolescentes. Eles saíram de El Salvador com apenas algumas peças de roupa e as economias de todos os membros da família.

Naquele momento, as extorsões e ameaças já haviam atingido todas as gerações dos Perez. Mesmo com parte da família já tendo buscado refúgio em território mexicano, os assassinatos em El Salvador continuavam vitimando os parentes que haviam ficado para trás.

Um par de tênis foi o estopim da morte de Rodolfo Antônio, neto da matriarca Maria Luz. Um dos membros da gangue o matou porque queria os sapatos do garoto de 14 anos. Três meses depois, a mãe dele, Sara del Carmen, foi assassinada pelo mesmo grupo criminoso.

Refúgio no México

Atualmente, os 17 sobreviventes da família Perez moram no mesmo quarteirão em uma pequena cidade no sul do México. Contando com o apoio financeiro da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) para complementar o salário de cada um, cada núcleo familiar mantém sua própria moradia.

Os Perez fazem parte do crescente movimento de pessoas da América Central que se veem forçadas a deixar seus países de origem por causa da violência de gangues nos centros urbanos ou das chamadas “maras”, organizações criminosas transnacionais que estão envolvidas não apenas com o tráfico de drogas, mas também em crimes como homicídios, estupros e extorsões.

Ana acompanha seus netos até a escola. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

Ana acompanha seus netos até a escola. Foto: ACNUR/Daniele Volpe

O ACNUR estima que os pedidos de refúgio no México cheguem a 20 mil em 2017, mais que o dobro dos registrados em 2016. Neste ano, situações como a dos Perez se tornaram recorrentes, já que o número de famílias obrigados a se deslocar é cada vez maior.

“Estamos trabalhando para garantir que essas unidades familiares permaneçam juntas e ofereçam suporte umas às outras em meio a esse processo traumático de deslocamento”, afirma o representante do ACNUR no México, Mark Manly.

A mudança para o México tem sido dolorosa para Maria Luz, pois além de problemas cardíacos e pressão alta, ela sente dores crônicas nos joelhos e está praticamente cega. Apesar dos desafios, ela diz conseguir sobreviver porque permaneceu junto do que restou de seus parentes.

“Eu cuido de minha mãe porque as questões de saúde dela dificultam a vida”, diz Ana Ruth, outra filha de Maria Luz. “Eu também tomo conta das crianças e dos netos quando o resto da família sai para trabalhar.”

Todos se ajudam e trabalham para viver no novo país. Carla, também filha da matriarca, passa 12 horas por dia em uma loja de tortilhas ganhando cinco dólares a cada fim de expediente. Sandra administra uma venda em frente à sua casa, e o lucro gira em torno deste mesmo valor. Pablo, o marido de Ana Ruth, recebe dez dólares por dia em uma oficina mecânica. Ele conseguiu empregos no mesmo local para seu sobrinho e genros.

“Você se sente mais segura perto de sua família”, afirma Sandra, ao abraçar Jose, seu único filho vivo. Ele é um dos que trabalha na oficina mecânica, mas espera que no futuro possa frequentar a universidade no México. “Quero que os outros nos conheçam como pessoas que se esforçaram, que deram o máximo de si”, diz emocionado. “Assim, poderemos honrar os membros de nossa família que não estão mais entre nós.”


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