Abraji condena agressões contra jornalistas durante manifestações em São Paulo

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou veementemente as agressões contra os profissionais de mídia que cobrem as manifestações em São Paulo. Os protestos iniciados na capital paulista por causa do aumento das tarifas dos transportes mobilizam milhares de pessoas em diversas cidades do Brasil e do exterior.

Jornalistas em Nova York durante coletiva de imprensa na ONU.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou veementemente as agressões contra os profissionais de mídia que cobrem as manifestações em São Paulo. Os protestos iniciados na capital paulista por causa do aumento das tarifas dos transportes mobilizam milhares de pessoas em diversas cidades do Brasil e do exterior.

Um veículo de transmissão da TV Record foi queimado na noite desta terça-feira (18) e uma equipe da emissora foi hostilizada. “Uma profissional da Band também foi atacada com um jato de vinagre no rosto durante a cobertura”, afirma a nota.

Desde segunda-feira os manifestantes têm vaiado as equipes de televisão e gritado palavras de ordem contra os meios de comunicação.

“Atos de violência contra a imprensa colocam em risco o direito à informação de toda a sociedade. O trabalho de repórteres de quaisquer meios ou empresas é tão essencial à democracia quanto os protestos ora em curso”, acrescenta o comunicado.

A Associação já havia se pronunciado contra as agressões de policiais militares a pelo menos dquinze profissionais da imprensa na noite de quinta-feira (13). “De acordo com relatos de profissionais que faziam a cobertura, em mais de uma ocasião a polícia, mesmo advertida de que se tratava de jornalistas, disparou balas de borracha e bombas de efeito moral”, afirma a instituição.

O caso mais grave é do fotógrafo Sérgio Silva, da Futura Press, que corre o risco de ficar cego. Atingido no olho esquerdo por uma bala de borracha, o profissional passou por cirurgia para recuperação do globo ocular, mas, segundo os médicos, suas chances de recuperar a visão são de 5%.

Uma bala de borracha também atingiu o olho direito da repórter da TV Folha Giuliana Vallone quando ela se refugiava em um estacionamento da rua Augusta. De acordo com a profissional, já não havia nenhuma manifestação violenta no local quando um oficial do Comando de Policiamento de Choque mirou e disparou contra seu rosto. “Eles já tinham mirado em mim outras vezes. Jamais achei que ele fosse atirar”, disse em entrevista ao próprio veículo. Vallone já voltou a enxergar.

O fotógrafo Filipe Araújo, do jornal O Estado de S.Paulo, foi atropelado por uma viatura na região da rua Bela Cintra. O profissional contou que agentes da polícia avançaram com o veículo em sua direção ao perceber que ele fotografava as barricadas de lixo montadas pelos manifestantes.

“Eu estava na rua, perto da calçada, fazendo fotos da viatura passando por cima do fogo. Nisso, o motorista de outra viatura que estava em outra faixa da rua me viu e virou o carro na minha direção. Ele viu que eu era fotógrafo, mas veio criminosamente para cima de mim. Eu virei de costas, tentei ir para a calçada, mas fui pego. Estava com um capacete de skate, mas machuquei a cabeça. Machuquei as costas, pernas, cotovelo, me ralei todo”, descreveu em depoimento publicado por O Estado de S. Paulo. “Ainda estava no chão quando uma outra viatura parou ao meu lado. O policial super truculento, mirando a arma para mim, falava: ‘levanta daí, levanta daí’. Eu não conseguia”, acrescentou.

Na mesma noite, um grupo da Força Tática da Polícia Militar que estava na esquina da rua da Consolação com a rua Maria Antonia mirou em fotógrafos e repórteres cinematográficos de O Globo, Folha de S.Paulo, Portal Terra, entre outros veículos que registravam a ação. Eles se identificaram como profissionais de mídia, apelaram para que não fossem atingidos, e mesmo assim os policiais dispersaram o grupo com balas de borracha e bombas de efeito moral.

Gisele Brito, da rede Brasil Atual, foi golpeada com cassetete na nuca e no rosto; Vagner Magalhães, do portal Terra, atacado por um PM quando estava sentado na mureta sob o Museu de Arte de São Paulo (MASP); Henrique Beirangê, do jornal Metro, foi atingido por spray de pimenta no rosto; André Américo, também do jornal Metro, atingido por balas de borracha; Bruno Ribeiro e Renato Vieira, do jornal O Estado de S.Paulo, foram atingidos por uma bomba de gás; Ana Krepp, Leandro Machado, Félix Lima e Rodrigo Machado, repórteres da Folha de S.Paulo, e Fabio Braga e Marlene Bérgamo, fotógrafos da mesma publicação, atingidos por disparos de balas de borracha e bombas de gás.

Dois repórteres foram detidos: Piero Locatelli, da Carta Capital, foi levado para a delegacia por carregar um frasco de vinagre namochila – o produto é usado para aliviar os efeitos do gás lacrimogênio; e o fotógrafo Fernando Borges, do portal Terra, passou 40 minutos com as mãos nas costas de frente para uma parede e depois foi liberado.

Já o jornalista Pedro Nogueira, do portal Aprendiz, que cobria o protesto de da terça-feira (11), foi preso acusado de formação de quadrilha. Liberado na sexta-feira (14), também vai responder por mas vai responder processo por dano ao patrimônio público e incêndio criminoso.

Também durante a cobertura do terceiro ato, foram detidos o repórter Leandro Machado, da Folha de S.Paulo, e o fotógrafo Leandro Morais, do UOL. Só na viatura, a caminho da delegacia, eles foram informados do motivo: “atrapalhar a ação da Polícia”. Os profissionais foram liberados mais de uma hora depois.

O repórter Fernando Mellis, do portal R7, levou um golpe com cassetete nas costas quando assistia junto a um grupo de pessoas à ação da PM contra um manifestante, que era empurrado e golpeado. Mellis foi agredido após mostrar identificação de repórter.

ONU pede investigação de uso excessivo da força policial

As Nações Unidas pediram na terça-feira (18) que as autoridades brasileiras realizem “investigações imediatas, completas, independentes e imparciais sobre o alegado uso excessivo da força” durante as manifestações no país.

O pronunciamento foi feito pelo porta-voz do Escritório de direitos humanos da ONU em Genebra, na Suíça. Rupert Colville disse que a Organização recebeu relatos sobre “uma série de danos, ferimentos, prisões e detenções, incluindo o de jornalistas que cobrem os eventos” e pediu que o Brasil tome “todas as medidas necessárias para garantir o direito de reunião pacífica e evitar o uso desproporcional da força durante os protestos”.


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