A vida de uma menina muda quando ela completa 10 anos

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A vida de Maria* mudou quando ela tinha 10 anos. A morte dos pais fez com que ela e as irmãs fossem criadas por outros familiares. Primeiro a avó, depois os tios e, finalmente, um tio mais afastado se encarregou das meninas.

Atualmente, mais de metade da população de 10 anos está em países com altos níveis de desigualdade de gênero, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Violência, acesso limitado à educação, obstáculos econômicos, proteção desigual de direitos humanos são alguns dos empecilhos à saúde e ao bem-estar das meninas.

Atualmente, mais de metade da população de 10 anos está em países com altos níveis de desigualdade de gênero. Foto: UNFPA Brasil/Tatiana Almeida

Atualmente, mais de metade da população de 10 anos está em países com altos níveis de desigualdade de gênero. Foto: UNFPA Brasil/Tatiana Almeida

A vida de Maria* mudou quando ela tinha 10 anos. A morte dos pais fez com que ela e as irmãs fossem criadas por outros familiares. Primeiro a avó, depois os tios e, finalmente, um tio mais afastado se encarregou das meninas.

“Minha avó ficou cuidando da gente e tinha um tio da parte da minha mãe que queria ficar com a gente também, mas aí minha avó disse que queria as quatro netas juntas. Meu tio me dava umas broncas, às vezes ele me batia. Hoje eu não guardo mágoa dele porque ele se arrepende de ter feito isso”, conta.

Maria sempre se considerou tímida, não gostava muito de conversar e também não tinha muito interesse pela escola. Hoje com 31 anos, vive com um primo direito, de quem tem um filho.

“Às vezes eu tenho vontade de conversar com alguém, desabafar, mas não tenho ninguém. Ele não gosta que eu fale com as minhas irmãs e, às vezes, eu fico sem falar com elas direito. Mas eu me sinto tão mal com isso”, desabafa sobre a relação com o companheiro que a ameaça, “mas não bate”. Maria já ouviu falar da Lei Maria da Penha, mas quer ajudar o companheiro e pai de seu filho a sair das drogas.

“Eu queria ajudar ele, quando ele tem estresse ele consome [drogas]. Me ele diz: ‘ah, não quero discutir com você, vou sair’. Ele sabe que eu gosto do menino [o filho], então, diz que vai levar ele de mim.”

Maria embala o filho de 3 anos, que nasceu com microcefalia. Ela recebe um benefício de prestação continuada, que é seu rendimento atual. Antes de ser mãe, trabalhava em um bar onde recebia 100 reais por mês.

Maria ainda sonha: “meu sonho é ter minha casa, gostaria que meu companheiro mudasse a atitude para meu filho não ver a mãe sofrer”. No entanto, o medo continua presente: “já pensei em ir embora, mas tenho medo que ele faça alguma coisa, que machuque o menino”, desabafa.

Apoiar e investir em meninas de 10 anos é a aposta do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) para conquistar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

“Para milhões de meninas, a chegada da puberdade marca o início de uma vida de pobreza, impotência e perda de oportunidades. Muitas se casam precocemente, engravidam, e com a gravidez vem os riscos para a saúde e o acesso limitado à educação, minando as perspectivas futuras e perpetuando o ciclo intergeracional da pobreza”, afirma Jaime Nadal, representante do UNFPA no Brasil.

“Essa é uma violação dos direitos fundamentais das meninas e uma injustiça imperdoável. Quando uma menina desfruta de seus direitos, é capaz de permanecer na escola e se manter saudável, ela tem uma chance melhor de realizar seu pleno potencial quando atingir a idade adulta”.

Atualmente, mais de metade da população de 10 anos está em países com altos níveis de desigualdade de gênero. Violência, acesso limitado à educação, obstáculos econômicos, proteção desigual de direitos humanos são alguns dos empecilhos à saúde e ao bem-estar das meninas.

Para quebrar o ciclo da pobreza, sustentar os resultados do desenvolvimento e não deixar ninguém para trás, é necessário garantir os direitos humanos, oportunidades iguais, proteção contra possíveis riscos, distribuição justa de recursos, visibilidade nos números e, finalmente, ser corresponsável pelo apoio a essas meninas.

O UNFPA sugere dez ações essenciais para que, em 2030, as meninas que hoje têm 10 anos, alcancem o seu pleno potencial:

1. Estipular a idade legal para as meninas respaldada por uma prática jurídica correspondente;
2. Banir todas as práticas nocivas às meninas e estabelecer a idade mínima de 18 anos para o casamento;
3. Oferecer educação segura e de alta qualidade, que apoie integralmente a igualdade de gênero nos currículos, nos padrões de ensino e nas atividades extracurriculares;
4. Promover a universalização da atenção em saúde, instituir a realização de exames de check-up de saúde mental e física para todas as meninas aos 10 anos;
5. Oferecer educação integral e universal em sexualidade no início da puberdade;
6. Instituir um foco rigoroso e sistemático na inclusão, atuando sobre todos os fatores que contribuem para deixar as meninas em situação de vulnerabilidade para trás;
7. Mapear e preencher as lacunas de investimento nas jovens adolescentes;
8. Mobilizar novos fundos para saúde mental, proteção e redução do trabalho não remunerado que limitam as opções para as meninas;
9. Usar a revolução de dados da Agenda 2030 para mapear o progresso das meninas, inclusive em saúde sexual e reprodutiva;
10. Envolver meninas, meninos e todas as pessoas próximas no questionamento e mudança das normas discriminatórias de gênero;

Segundo a agência da ONU, só assim o potencial de uma menina de 10 anos poderá ser alcançado e histórias como a de Maria serão cada vez menos no Brasil e no mundo.

*nome fictício


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