A energia atômica a serviço da pecuária

Projeto busca erradicar a mosca da bicheira, parasito que causa prejuízos milionários e está presente em quase todos os países da América do Sul.

Projeto busca erradicar a mosca da bicheira, parasito que causa prejuízos milionários e está presente em quase todos os países da América do Sul.

Santiago, Chile – Uma revolucionária técnica a partir da energia atômica pode ser a solução para a erradicação da mosca da bicheira, uma das doenças animais mais comuns na América do Sul, afirmou o Oficial de Desenvolvimento Pecuário da FAO, Moisés Vargas-Terán.

Este parasito afeta aos animais e ao homem e está presente em todos os países da América do Sul, com exceção do Chile. Apenas em 2002, a mosca da bicheira causou perdas econômicas de mais de US$3,6 bilhões, sem contar os problemas de saúde pública que ocasiona.

Os esforços de erradicação da enfermidade começaram com um projeto piloto numa área da fronteira entre Brasil e Uruguai e contam com a participação desses dois países, do Paraguai, da FAO, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e da Comissão Mexicano-Americana pela Erradicação da Mosca da Bicheira (COMEXA).

Conhecida pelo nome científico de Cochliomyia hominivorax, a mosca da bicheira deposita larvas nas feridas de animais vivos ou pessoas. Se as infestações não são medicadas, podem ser fatais.

A técnica dos insetos estéreis
A técnica dos insetos estéreis aproveita que as fêmeas da mosca da bicheira somente copulam uma vez na vida. Machos estéreis são produzidos industrialmente a partir da irradiação de doses mínimas de energia atômica e introduzidos por avião nas áreas infestadas, onde copulam com as fêmeas silvestres. Isso faz com que as populações silvestres da mosca da bicheira progressivamente percam sua capacidade reprodutiva, dessa forma, eliminando a doença.

“Essa tecnologia é um excelente exemplo do uso pacífico da energia atômica a serviço da pecuária e sem riscos para a saúde humana”, afirmou Moisés Vargas-Terán.

A Técnica dos Insetos Estéreis não prejudica o meio ambiente, é inócua aos seres humanos e, apesar do elevado investimento inicial necessário, tem uma boa relação custo benefício, que em experiências anteriores chegou a 1:10 nos Estados Unidos e 1:4 no México, ou seja, para cada US$1 investido se recuperaram US$10 nos EUA e US$4 no México.

Durante a prova piloto demonstrativa para a América do Sul, que começou neste mês de fevereiro de 2009, os insetos viajaram do México (onde as moscas estéreis foram produzidas pela COMEXA) até a fronteira do Uruguai (Artigas) com o Brasil (Rio Grande do Sul), onde foram liberados na região em pequenos aviões. Esse processo se repetirá ao longo de nove semanas seguidas.

“Ainda precisamos superar muitos desafios, mas os grandes empreendimentos sempre começam com um passo. Nós demos esse passo graças ao esforço dos países do Mercosul e instituições internacionais e estamos fazendo história na luta contra doenças que afetam o capital pecuário da América do Sul e saúde de seus habitantes”, disse o Oficial de Desenvolvimento Pecuário da FAO. Vargas-Terán acrescentou que o objetivo final do projeto é a erradicação do parasito em todo Mercosul e, posteriormente, no resto da América do Sul.

Êxito anterior com a técnica
A FAO já apoiou o uso da Técnica dos Insetos Estéreis quando a mosca da bicheira causou uma emergência sanitária mundial ao ser introduzido, em 1998, desde seu habitat natural no continente americano à Líbia. Naquela ocasião, a FAO liderou um programa de erradicação no valor de US$ 35 milhões, financiado doadores internacionais, e evitou que a doença se estabelecesse no continente africano e se espalhasse para outras regiões.